Há vinhos que são gastronómicos, há vinhos que se aguentam bem sozinhos, há vinhos que nos proporcionam uma viagem ao passado ou a sítios muito específicos e depois há estas duas garrafas que combinam isto tudo e muito mais.
Já bebemos alguns vinhos velhos, mas como estas duas garrafas eram especiais, averiguámos antes se o vinho deveria ou não ser decantado. No que toca à decantação, as opiniões não eram unânimes. Havia contudo um consenso: as garrafas deveriam ser colocadas de pé 48 horas antes da abertura, para que o depósito ficasse no fundo. Como não somos de modas, ficaram 120 horas.
Abrimos a primeira garrafa, ou melhor, tentámos. Tentar abrir uma garrafa, isto é, tirar um rolha que está lacrada há 47 anos é uma experiência por si-só. Como não havia pinças, tivemos de meter mãos à obra com um saca rolhas normal, já que tínhamos ainda na memória a destruição que um saca rolhas mecanizado provocara numa rolha de Barca Velha 2000. Com alguma dificuldade, a rolha lá saiu, e ao fim de 47 anos o precioso néctar voltava a respirar o nosso ar.
Começámos por não decantar o vinho e vertemos directamente para o copo. Contudo, após algum tempo, tornou-se claro que o arejamento lhe estava a puxar os aromas, em vez de tirar força como temíamos, e decidimos decantar o que restava da primeira garrafa e a totalidade da segunda. Naturalmente, sem as misturar.
Ao primeiro olfacto, apareceram os aromas terciários, como o couro, mas o vinho demonstrava desde logo que, mesmo velho, certamente não estava morto. Na boca, apresentou ainda notas de fruta, a lembrar os primeiros tempos onde todo ele devia ser exuberância, com os taninos a revelaram-se de forma diferente nos vários copos, para espanto generalizado. Ora se achavam ginjas, ora se descobria poeira, ora a elegância aliada ao couro resultava num aroma convicto e memorável.
Provar duas garrafas de 1964 daquele que é considerado um dos melhores vinhos portugueses é uma experiência única, que certamente nos ficará na memória tanto tempo como o vinho esteve dentro da garrafa. Um brinde a Fernando Nicolau de Almeida, que nos concedeu um grande motivo para nos orgulharmos dos nossos vinhos.
Nota: 19
Preço: 400 euros nas garrafeiras
Texto escrito a seis mãos por Rita Bueno Maia, Gonçalo Proença e Nuno dos Vieira.




Queridos,
as 6 mãos revelam-se talentosas…que bela viagem a 1964!
Bjs,
Obrigada, Celma! É impossível escrever uma experiência destas a solo. É preciso uma equipa!
Nada como voltar ao ano de 1964. Uma viagem por cheiros e sabores únicos que de certeza vai ficar nas vossas memórias para muito tempo. Que inveja (saudável claro ). Um abraço e boas provas.
Obrigada, NBarroca. Enquanto bebíamos este vinho, discutíamos constantemente o que estas garrafas tinham passado. Inclusivamente, apercebemo-nos que em 64 nem os meus pais, nem os pais do Nuno, nem os pais do Gonçalo se conheciam!!
E este vinho na garrafa, a observar, à espera…
Este vinho é muita coisa e um bocadão de História!
Magnifico texto….e uma grande homenagem a um Icon nacional….
Já não se fazem vinhos assim…
E depois ainda falam do Soalheiro 94…. eehe
De qualquer forma estao todos de parabens, pois conseguiram, como diz o Nuno Barroca transportar-nos até 64…e levar-nos convosco nessa viagem que foi beber um Barca Velha de 64…
Parabens!!! e Obrigado!
Tal como dizes é um símbolo nacional, e tenho a certeza que muitas vezes direi: “Já bebi um Barca-Velha de 64″.
Quando eu provar um Soalheiro de 94… ninguém me atura!!
Uma das coisas interessantes que aprendi é que um vinho destes é um príncipe cheio de manias. Este vinho manifestava-se de maneira diferente em cada copo, mudava de minuto em minuto, mas, graças ao Senhor, nunca desvaneceu!
Concordo com quase tudo o que para aqui foi dito – foi uma experiência única e tal como a Rita, já posso dizer “Já bebi um Barca Velha de 64. Aliás, dois”.
Enquanto vinho, era um vinho BEM diferente do que já bebi até hoje, mas foi genial como o vinho se foi desdobrando no copo, como o vinho foi mostrando a sua complexidade de mostrando aromas por baixo de aromas.
A grande surpresa foi o vinho abrir-se de maneira diferente, em diferentes copos ( copos iguais ), portanto resultante das mãos e subsquente temperatura dos copos.
Uma experiência que nos vai acompanhar, pelo menos, durante 64 anos a cada um…
Aproveitando as palavras do Nuno Barroca…que inveja saudável!! Não consigo sequer imaginar a sensação a 3 que partilharam! E acho fantástico o vinho ter-se revelado de forma diferente em cada copo!
Adorei toda a tua sensibilidade nas palavras como descreveste este verdadeiro “património nacional”!
É uma experiência inesquecível e até uma grande responsabilidade! É daquelas oportunidades que surgem na vida e que têm todo este significado porque existe este site e pessoas com quem partilhar.
Gosto da foto, Gustavo!
Sem dúvida Rita!! Certas e determinadas oportunidades só têm mesmo significado se tivermos com quem as partilhar!
A foto foi tirada na Cave da Croft em Gaia!
Ag pois é!
Quem é que te levou la!?!? Hehehe
Muito bom essa visita… Pena que a rapariga parece que tinha engolido um gravador…
Mas as caves da Croft são muito fixes! E ainda nos ofereceram 3 vinhos para provar!
Abraco!
É verdade my friend!! Foste tu mesmo!!
Nem me fales em gravador, que o ano passado quando lá estive em cima e fui à da Sandeman, acho que ainda foi pior que na Croft! O que valeu foi realmente a degustação que fizemos!