Dona Ermelinda (2009)

Hoje tive um acesso de famoso: sai para comprar uns ingredientes que faltavam para o jantar, lá fui eu ao mercado indonésio que há ao lado da minha casa e a senhora simpáticamente virou-se e disse “xenhor dos vinhos, não leva uma garrafa ? exta acabou de xegar, molto boa molto boa” e lá bradia ela uma Dona Ermelinda 2009.

6 euros, enfim, por um acesso de fama – estava claramente a confundir-me com um cliente qualquer mas por 16 segundos naquele bocado de Bali em pleno centro de Lisboa, pensei “a senhora foi ao ETOVL e sabe quem eu sou” ; são sempre tão simpáticos comigo que decidi levar a garrafita, que ia acompanhar um frango no forno com ervas e limão, com puré e salada de rúcula ; alem disso a casa que faz este vinho, faz também o Leo D’Honor, um dos primeiros vinhos premium de sempre provados aqui no ETOVL, faz quase um ano. A esperança instalava-se.

Abrindo o vinho, um aroma amadeirado apareceu e com um leve trago, isso foi confirmado – lá que tem madeira, tem. Tem tambem acidez, mas alguem se esqueceu de avisar que é bom que seja com peso e medida. Os taninos possivelmente estão lá, bem como os tradicionais aromas de frutas vermelhas que eu acredito piamente que estejam presentes. Mas é preciso um palato de golias para passar por cima daquela acidez toda.

Como não sou pessoa de desistir, deixei o vinho abrir um bocadinho ; afinal de contas, o ultimo Mouchão que bebi teve um começo muito desesperante. Se calhar, há laivos de Leo D’Honor aqui neste vinho e só é preciso esperar um pouco.

Mas não.

Eu bem que podia esperar uma vida inteira, que aquela acidez, que ia sendo cortada com madeira e alguns taninos, continuava tudo na mesma. Um pouco mais aberto no nariz, mas o problema é que se tinha de beber – e isso era uma chatisse.

Mas persisti e fiz o impensável : li o rótulo. Aquelas baboseiras todas do marketing que vêem e não percebo porque os produtores insistem em meter, li com atenção e dizia :

Vinho com cor granada quase opaco, com aromas a lembrar frutos pretos, especiarias e fumo, com alguma compota devido à grande maturação atingida. Na boca é um vinho denso, cheio, com grande estrutura, taninos presentes mas integrados e macios. Final longo persistente e muito agradável.

Compotas ? Especiarias ? Frutos ?! Final muito agradável ? Entre mim e a pessoa que escreveu o rótulo, um deles não tem papilas gustativas mas tem uma grande imaginação. O outro escreve para o ETOVL.

Nem com o puré, que estava bastante amanteigado, aquela acidez toda servia de algo – o vinho é mesmo desiquilibrado.

Em resumo :

- por 6 euros, há vinhos bons. alguns muito bons. este não é um deles.

- a senhora do mercado é muito simpática mas vou passar a escutar com atenção as recomendações dela para o peixe fresco do dia. para as recomendações de vinhos, nem por isso

- a fama tem sempre preço, mesmo quando é fruto da minha imaginação recambolesca e a custo de 6 euros. não compensa, digo-vos. mesmo quando é ficticia !

Nota : 8

Preço : 6 euros

imagem “roubada” do site Magna Casta, visto que ao tirar foto da nossa garrafa, a mesma partiu-se :)

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    Gonçalo Proença

    Sobre Gonçalo Proença

    Conhecido pelo seu amor ao Dão e seus vinhos tendo, no entanto, uma grande paixão pelo Vinho do Porto, sobre o qual escreve - e o qual bebe - regularmente !