Quando penso em tintos do Dão, nomeadamente os da responsabilidade de Álvaro Castro, penso numa força bruta. Penso num vinho que não se descaracteriza com nada, que rebenta sebes e represas e que obriga os apreciadores a aguentarem um vinho que é ainda mais vinho.
Este Quinta da Pellada 2000 tem tanta força que conseguiu rebaixar o seu próprio produtor. Confidenciou-me um dos redactores deste site que o próprio Álvaro Castro temia o que os doze anos teriam feito a este vinho. Assegurava mesmo “que com certeza não estaria bom, que a garrafa devia ser trocada”. Já o E tudo o vinho levou… não se deixou abater e foi à luta até domar este vinhão. Mas não foi fácil, como se verá.
No copo, no meio da cor retinta que é tão familiar aos amantes da Touriga Nacional, achámos uma discreta e frágil auréola, fruto da década que já contava. Vantagem nossa.
No nariz, saltaram laivos de cavalo, de estrebarias, de botas de couro com terra, de terra molhada. Sentimos tudo o que há de telúrico e bestial. Vantagem dele.
Na boca, o mano a mano foi renhido. De uma parte, este Quinta da Pellada apresentou-se dócil no seu depósito (digno de respeitosa idade), na uva madura que tendia para o doce e nas notas florais que reduziam o álcool. De outra parte, mostrou-se bruto na sua acidez (incompreensível num vinho com doze anos), no sabor convicto e marcado à terra e ao cascalho do Dão
No final de boca, a sua última cartada: este vinho termina na replicação nada meiga da madeira, da acidez e das estrebarias.
Por volta do terceiro copo, lançámos nós a última cartada: os sabores brutos foram-se controlando e o vinho revelou-se um vinho grande, um vinho complexo, um vinho cheio, um vinho satisfatório. Este Touriga Nacional oferece a experiência única da intensidade do aroma a terra, da uva doce, dos laivos florais, da acidez convicta e um final de boca longo.
Agora, vimos requerer novo set. O próximo Quinta da Pellada 2000 vai ser decantado, ou seja, desarmado antes de chegar à mesa. Se for possível alguma vez desarmar um touriga nacional, do Dão, assinado por Álvaro Castro…
Preço: já não se encontra à venda.
Nota: 18
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Rita!
Que belo texto,…. Que vinho enorme!!!!
Uma bela homenagem a um dos melhores produtores nacionais!
O Dão é uma região fantástica… E os vinhos são prova disso…
Mais uma vez parabéns!
João, muito obrigada!
Muito obrigada por teres gostado do meu texto.
E muito obrigada por me teres dado a provar este vinho. Não é um vinho nada fácil! É muito robusto e, de facto, no momento da abertura da garrafa, sente-se já um certo desequilíbrio.
Ou seja, não é um vinho para todos, mas é um grande vinho! Um vinho cheio de vinho, em que se sente toda a sua história e toda a seu terra.
Viva o Dão!!
Isto não é para agradecer….
É realmente um prazer partilhar estes vinhos con quem aprecia realmente a alma do vinho…
O vinho não é nada sem amigos!!!
Rita,
Conseguiste transportar me ao jantar enquanto estava a ler o texto…aliás ainda me cheira a cavalo…
Obrigada ao João por teres partilhado connosco esta pérola!
Dankeschön aos dois!
Não tens de agradecer!!!
Agira essas palavras aí no fim vieram a calhar… Vou usar tradutor!!!!
Ah, pois…. começamos com o Espanhol e com o Inglês e eis que a Celma se animou. De Alemão, só sei uma palavra: Gewürztraminer. E é bem importante!
Ahah Bia Rita! Brevemente vou ensinar-te outra…. Riesling!!!!!
Obrigada pelo comentário, Celma.
Para mim, este vinho foi uma experiência memorável. E acabou por revelar-se uma declaração de força da equipa do ETOVL. Se este vinho não está já bom para muita gente, para nós está ainda muito vivo!
Eu volto a dizer o que já foi dito Rita : excelente texto para um vinho monumental.
Um agradecimento meu a ti, pela bela prosa e ao João, por trazer esta bela garrafa
Concordo com a Celma, foi uma viagem a esse dia e é caso para dizer : “ó tempo, volta para trás !!! “
Obrigada, querido Gonçalo. Tens de agradecer ao João e ao Álvaro de Castro, pela prosa também. Um vinho destes enche qualquer um de inspiração!
Sem dúvida que provar este vinho foi uma experiência muito muito interessante. Especialmente partindo do princípio que o próprio produtor dizia que já não devia estar bom e que era melhor trocar a garrafa… como ele estava enganado
O texto está tão bom de ler, como o vinho foi de beber. Muito bom, Rita.
Obrigada, Nuno. Eu acho que ficou provado que nós gostamos mais dos vinhos de Álvaro C. que o próprio Álvaro C.
Não surpreende, eu não consigo imaginar ninguém que goste mais de TN do Dão do que eu/nós.