Vinhos Históricos Portugueses

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Tradição, História e falta de divulgação são alguns dos atributos de que me lembro quando se fala de Portugal, seja em termos vínicos ou não.

Há pouco tempo tive contacto com um daqueles que é considerado um vinho histórico. É verdade: em Portugal temos vinhos históricos. Não sabiam?! Nem eu… existe até uma Associação de Vinhos Históricos Portugueses (AVHP).

Tenho de confessar que fiquei gelado quando me perguntaram se conhecia os vinhos históricos portugueses. A verdade é esta:  eles existem, mas ninguém sabe quais são… Pois bem, posto que aqui no E Tudo o Vinho Levou somos a favor destas causas, isto é, divulgar o que merece ser divulgado e porque, acreditem, estes vinhos são um património riquíssimo, vamos aqui apresentá-los.

Mas relembro antes que, há algum tempo, houve uma acção de promoção de um dos vinhos históricos portugueses no Palácio de Seteais. Não conheço ninguém que tenha ido, mas sei que os convidados foram “os suspeitos do costume”. E agora pergunto: de que vale isso? Um artigo numa coluna de uma revista? Um artigo que ninguém leu? Digo que até sei onde e quando saiu esse artigo, mas não me lembro de o ler. Pergunto então e ainda: que impacto é que essa acção teve?! Enfim, mais uns vinhos para serem colocados em guias como vinhos provados…

Tenho pena de que sejam sempre os mesmos a serem convidados para estes eventos e que estas associações não se apoiem mais nos bloggers e sites que realmente conseguem gerar “buzz” na internet e nas redes sociais. Não compreendo por que têm de ser sempre os mesmos quando os resultados não se veêm, enquanto nós  estamos cá exactamente para divulgar.

Passando ao conceito de vinho histórico, são considerados históricos os vinhos por duas razões: ora porque contêm características que os fazem destacarem-se dos outros ora porque ainda respeitam tradições ancestrais nos processos de vinificação.

Quanto aos vinhos históricos portugueses, eles são:

Verdelho do Pico e Verdelho dos Biscoitos. Chamo a atenção para o facto de o Verdelho dos Biscoitos taratr-se do o vinho que abastecia as frotas de navios que passavam pelos Açores, seguindo a rota das Américas e do Oriente.

Vinhos de Talha do Alentejo, por respeitarem a tradição e serem vinificados  em talhas de barro, como no tempo dos Romanos.

Os Petroleiros de Vila de Frades, pelo seu prolongado estágio que lhes confere certas características quer visuais quer aromáticas quer ainda gustativas.

Os vinhos de Colares, por terem sobrevivido à filoxera, pela forma como as videiras são plantadas e pelas suas características únicas em termos aromáticos. Os vinhos de Colares são vinhos duros que não agradam a todos mas que, para mim, têm muito valor. Gosto particularmente dos brancos de Colares com alguma idade.

O Medieval de Ourém, pois tem a sua origem na fundação de Portugal, quando D. Afonso Henriques celebrou com os monges de Cister vários acordos cedendo-lhes terras para cultivo. Este vinho é feito exclusivamente a partir das Castas Fernão Pires e Trincadeira vindimado à mão e separadamente. As uvas brancas são prensadas em lagares e os mostos são guardados em vasilhas de madeira de modo a não excederem os 80% da capacidade das mesmas. A Trincadeira é desengaçada e fermenta com curtimenta em lagares durante 4 a 10 dias; a pisaé  feita a pé.
O mosto tinto não é prensado e é colocado nas vasilhas que já contêm o mosto branco conseguindo-se assim um “Palhete”.

O Enforcado que, inserido na região dos Vinhos Verdes, provém de dos mais antigos e trabalhosos sistemas de condução da videira, associado à viticultura etrusca. Concretamente, a videira é plantada em redor de uma árvore que lhe serve de tutor. As uvas são produzidas em altura o que lhes transmite características específicas como, por exemplo, a baixa intensidade e o baixo teor de açúcar. A frescura, adstringência e ligeiro gás conferem-lhe um carácter único e muito apreciado por todo o mundo.

Apresentados estão os vinhos históricos de Portugal: as suas características únicas, as suas técnicas ancestrais, a tradição que representam e respeito pelo saber antigo que mantêm.

São vinhos que merecem divulgação e certamente merecem toda a nossa atenção, pois, no fundo, eles próprios património nacional e alguns deles ainda estão inseridos em zonas consideradas como património mundial. Em tempos de crise há que ter orgulho em nós e nestes vinhos. Ainda que estejam algo esquecidos e sejam pouco divulgados, os vinhos históricos portugueses fazem-me sentir orgulho em ser português.

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    Joao Chambel

    Sobre Joao Chambel

    ETOVLiano apaixonado e sommelier. Os vinhos são a sua vida e paixão! Brancos, tintos, rosés, fortificados, espumantes, nacionais e estrangeiros, novos e velhos... A Bairrada é uma das suas regiões de eleição e faz regulares transfusões de Baga e Borgonha.